Autor Tópico: In your face Dunadan!  (Lida 277 vezes)

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RicardoM

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em: 08 de Fevereiro de 2010, 19:17

Fev 10
Acordo ortográfico? Sim!!

Antes que me acusem de defender uma escolha que não pratico, deixem-me confessar, primeiro, que resistirei enquanto me fôr possível e, mesmo depois de me render ao inevitável, continuarei certamente a cair no erro de escrever como sempre escrevi. Uma norma deste tipo não se adopta de um momento para o outro. A geração de transição está destinada a acabar os seus dias sem saber escrever “correctamente”.

Porque o defendo, então? Porque a língua evolui. Com ou sem acordo ortográfico, os nossos netos irão utilizar uma escrita tão distinta da actual como a nossa é distinta da dos nossos avós. E não estou a exagerar, a diferença é notória.

Para quem, tem como hobbie a leitura de papéis gastos pelos séculos, isto não é novidade. Para os restantes, talvez seja surpresa. As nossas consoantes mudas são um vestígio da escrita do passado, repleta de letras desnecessárias, herdadas de uma linguagem falada esquecida há séculos.

Alguns exemplos concretos são melhores que qualquer justificação que possa dar. São registos retirados da minha genealogia. A escolha recaiu sobre os textos mais facilmente legíveis – não foram escolhidos pela “estranheza” das palavras.
1909

Em 1909, há 101 anos, escrevia-se assim:

    Aos vinte e seis dias do mez de setembro do anno de mil novecentos e nove, nesta egreja paroquial d’Amor, concelho de Leiria, diocese de Coimbra, baptizei solenemente um individuo do sexo femenino a quem dei o nome de Conceição, que nasceu nesta freguezia á uma hora da noite de vinte e um do corrente mez e anno, filha legitima de Manuel Pontes e de Emilia Silva, trabalhadores, naturaes, moradores, paroquianos e recebidos neste logar e freguezia d’Amor, neta paterna de Jose Pontes e Thomazia de Jesus e materna de Antonio Serra e Joaquina Silva. Foram padrinhos Manuel Rainho Junior, trabalhador e Possidona de Jesus, solteiros, os quaes todos sei serem os proprios. E para constar se lavrou em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, que não sabem escrever, eu só o assigno. Era est supra. O Parocho Joaquim Gonçalves Margalhau

Mas não ficarei por aqui.
1805

Em 1805, há 205 anos, era esta a nossa ortografia:

    Aos vinte e nove de Janeiro de mil outo centos e sinco baptizei e puz os Santos Oleos a Jose fº de Jose Ferrª Rico e sua mer Clara dos Ramos da Moita do Boi, netto Paterno de Antonio Ferrª Rico e sua mer Rosa Mª dos Stos do Cazal dos Loureiros junto a esta Vª e materno de Jose Frco Fazendeiro e de sua mer Maria dos Ramos do dº lugar da Mouta do Boy. Padrinhos Jose Leal solteiro, e Frca dos Ramos do dº lugar da Mouta do Boy. testª Mel Frco e Jose Frco Fazendeiro da Mouta do Boy de q fiz este assento dia, mez, e era est supra

Como podem reparar, também há 200 anos se abusava das abreviaturas. Não é característica exclusiva da geração-SMS.
1778

Em 1778, há 232 anos:

    Aos sete de Mayo de mil e setecentos setenta e outo baptizou solemnemente e pôs os santos oleos o Rdo P. Coadjutor Joze Ferreira a Jozé nascido de oito dias, filho de Antonio Ferreira Rico, natural desta Villa e de sua Mulher Roza dos Santos, natural do lugar dos Bonitos, freguezia da Almagreira. Neto Paterno de Manoel Ferreira e de sua Mulher Francisca da Conceição, naturaes desta Villa, e pela parte Materna he Netto de Manoel Gonsalves e de sua Mulher Cristina dos Santos do lugar dos Bonitos da mesma freguezia de Almagreira. Forão Padrinhos Joze Teixeira desta Villa, e testemunhas Sebastião José e Joze Joaquim desta Villa, de que fis este assento, que assignei

Nem sempre é fácil distinguir os “s” dos “z”, e desde já peço as minhas desculpas pelos inevitáveis erros de transcrição. O melhor é tentarem ler os originais! :)

Em 1708, há 302 anos:
1708

    Aos vinte de Fevereiro de mil e sette centos e outo annos, contrahirão Matrimonio in facie ecclesia em minha prezença e das testemunhas abaixo nomeadas, André Gaspar filho que ficou de João Lopes dos Ratos, e Magdalena Domingues filha que ficou de João Domingues das Biqueiras, sendo primeiro corridos os banhos sem impedimto e receberão as benções e forão testemunhas Manoel Frz’ Carrisso, Manoel Frco dos Ratos, Antonio Domingues da Foz, e outras mas pessoas, e por verdade fiz este assento, que assinei era est supra. O P. Cura João Frz’ de Almeyda

Finalmente, em 1697, há 313 anos, finais do século XVII:
1697

    Aos trinta dias do mes de outubro de mil e seis sentos e noventa e sette annos baptizou e pos os santos oleos o P. Mel Nunes mor na mata da torre a Jozeph fº de Pº Simones e de sua molher Izabel Denis mres no Cazal do Bispo freguezia desta parrochial Igr de NSrª da vitoria deste lugar de Famalicão. forão padrinhos Mel Nunes o mosso e Izabel do Couto fª de Manoel do Couto e de Maria frca moradores no Cazal do Bispo, em certeza de que fis este acento em que me assiney dia era mes est supra. Lourenco de Almeida.

Com ou sem acordo ortográfico, a escrita evolui.

A troca de “s” por “z” foi uma constante ao longo dos séculos. O mesmo para os “u” e “o”, os “ou” e “oi”, os “ão” e “am” e tantos outros. Os “y”, que eram comuns há alguns séculos, desapareceram sem deixar rasto. Uma das surpresas maiores, a meu ver, é a ocorrência, há três séculos, do nome Joseph (e outro que não aparece nestes textos – Joam). Assim se escrevia, mas fica a questão: como seriam lidos?

Interrogo-me se os mais reticentes em aderir ao novo acordo, estariam dispostos a retroceder a escrever nestes formatos. Afinal de contas, estaríamos a recuperar uma tradição e estaríamos muito longe de abrasileirar a nossa língua!

Sejamos claros: faz tanto sentido escrever “correcto” como fazia sentido escrever “anno”, ou “solemnemente”. Para quê complicar? Se as letras estão lá a mais, então, que saiam…
The Enrabator



tugafcp

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em: 08 de Fevereiro de 2010, 19:30
Isso não tem ponta por onde se pegue a meu ver!

Este acordo ortográfico serve para os paises de lingua oficial portuguesa escreveram de uma forma muito semelhante à de Portugal. Não foi uma evolução ao longo do tempo...


Eu vou continuar a escrever como sempre escrevi, com o Português que gosto de ver...

Agora que tou a escrever isto, lembrei-me da palavra Húmido/a que o "h" se lixa  :incredulo:


Eu prefiro muito mais ler assim: "hum... tou a ficar húmida... anda pró pé de mim!", do que ler "úmida"... epah... sem o "h" parece que se perde ali alguma coisa... fica mais falsa a frase :doido:



Rodrigo Cesar

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em: 08 de Fevereiro de 2010, 19:33
Eu na figura de um brasileiro não vi muito sentido no acordo. Primeiro, porque sempre li com desenvoltura o português de portugal, tanto na literatura quanto em escritos técnicos nos quais não há tradução brasileira ou quando a nacional está muito ruim.

Outra coisa também é quando a lingua vai mudando naturalmente, e neste sentido os exemplos são válidos,  e quando é imposto um acordo de uniformização de cima para baixo com o simples interesse economico de alguns grupos editoriais.

Sobre os exemplos, não sei se textos de cartório são os mais indicados para compararmos eras da lingua. Até hoje os cartorários escrevem de forma mais complicada e formal do que a escrita mais comum, logo, suponho que nas épocas também os escriturários escreviam de forma mais complicada do que a a forma habitual. Quando leio Camilo Castelo Branco ou Eça de Queiroz, por exemplo, não sinto uma disparidade tão abissal quanto a dos textos de registros mencionados.
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Re: In your face Dunadan!
« Responder #2 em: 08 de Fevereiro de 2010, 19:33 »

ruifreitas

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em: 08 de Fevereiro de 2010, 19:34
Contesto. Apesar de, isso sim, ao longo da história se ter sempre trocado o "z" pelo "s", há um, dois, três séculos atrás, não se escrevia tal e qual como ali nos é mostrado. Para tal basta lerem Camões, Padre António Vieira, As Crónicas de Fernão Lopes (que ainda são mais antigas), e verão que o português era bem mais legível do que aquele que nos é apresentado nos textos acima. Isso é para inglês ver, como se costuma dizer. :lol:
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Dunadan

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em: 08 de Fevereiro de 2010, 19:41
Se quizerem, podem ezcrevere ainda de forma mais arcaica ou insohlita, se prepherirem...

O novo acordo ortográphyco naom eh mais que uma convençaom que visa benephyciar umas quantas editoras para estimular as suas vendas...

É a mesma coisa que o Estado obrigar todos os cidadaons a renovarem os seus passaportes de 2 em 2 anos, só para dar um exemplo. ;)



ruifreitas

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em: 08 de Fevereiro de 2010, 19:47
Exactamente, o Liton disse por outras palavras aquilo que eu também referi. :cool:

Quanto ao acordo em si, é chocante. Quer dizer, nós, Povo Português, dos mais ricos em História de todos os tempos, vamos implementar uma metamorfose desta natureza na Língua de Camões, por uma questão de uniformização linguística para com os PALOP e não só? Ridículo. Não temos que mudar rigorosamente nada! Vamos empobrecer, e não é pouco, a nossa rica língua, que ainda é das poucas coisas a que dou valor, tentando, por isso, nunca a maltratar. Este Acordo não passa senão da criação de facilitismos para as gerações vindouras, que não terão o trabalho de colocar o "h" na palavra helicóptero.

E a Literatura a ser produzida daqui em diante? Não acham que se tornará manifestamente mais pobre? Eu não tenho dúvidas. Se fosse Presidente da República contestava, lutava, batalhava, até as forças me faltarem, para que esta palhaçada não entrasse em vigor. Nem que para isso tivesse que abortar este Acordo unilateralmente, já que para os restantes países envolvidos, esta questão não levanta grandes dúvidas.

Só para terminar. O Português é Nosso, o Português é de Portugal. Se algum país está descontente com a sua língua, que a mude, mas que não nos arraste consigo.

Se mudarei a minha maneira de escrever? Só se me espancarem.

Em nome da nossa língua, permitam-me publicar aqui um Hino, que se adequa, melhor do que qualquer outro poema, ao contexto:

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

Não ao Acordo Ortográfico.
« Última modificação: 08 de Fevereiro de 2010, 19:49 por ruifreitas »
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vascobzky

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em: 09 de Fevereiro de 2010, 02:23
Régio , Vila do Conde e mais nada. Só por aí leva nota 20 o teu comentário  :bom:



Dunadan

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em: 09 de Fevereiro de 2010, 02:29
Caxineiro também? :mrgreen:



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Re: In your face Dunadan!
« Responder #7 em: 09 de Fevereiro de 2010, 02:29 »

vascobzky

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em: 09 de Fevereiro de 2010, 02:34
Caxineiro também? :mrgreen:

Não sou caxineiro :P O Régio dizem que era, até há quem diga que ele era da Póvoa do Varzim, enfim rivalidades de vizinhos  :bom:

Eu estudei foi na Escola Secundária José Régio que fica nas Caxinas :P




 


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