Autor Tópico: Kenny "Zulu" Whitmore: "Estive livre 24 horas nos últimos 32 anos"  (Lida 126 vezes)

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Dunadan

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Por pertencer aos Panteras Negras, Whitmore alega que foi falsamente acusado de roubo e homicídio. Preso desde 1977, passou os últimos 32 anos na prisão Angola, uma das mais brutais dos Estados Unidos.


O pantera negra Kenny "Zulu" Whitmore está preso há mais de 32 anos em solitária na prisão de Angola (no estado do Luisiana), uma das mais brutais prisões dos Estados Unidos, também conhecida como "a última plantação de escravos". Está detido em condições cruéis, numa gaiola de 1,80 m por 90 centímetros.

A baronesa Carrie von Reichardt (que entrevistou Kenny "Zulu" Whitemore) é uma artista e activista londrina. Ela e o parceiro estão a cobrir as paredes exteriores da casa com peças e mosaicos cerâmicos. Gostam de chamar à casa The Treatment Rooms - a única casa da resistência do Reino Unido, em cerâmica.

O mais recente mural, de 12 metros, na parte traseira da casa, destina-se a chamar a atenção para as dificuldades por que passam os panteras negras encarcerados. Carrie escreve a Zulu há vários anos e é actualmente a porta-voz da Free Zulu Campaign no Reino Unido.

Zulu foi para a prisão com o quarto ano de escolaridade e com um defeito de fala. Durante mais de trinta anos, não só se educou a si próprio e se manteve firme nos seus princípios, como ajudou outras pessoas no interior do complexo prisional. Zulu é inabalável e resoluto. Nesta entrevista, fala sobre a vida, a liberdade e o ócio, e continua a desmontar o sistema com Carrie.

Para um homem que está em prisão solitária há mais de três décadas, deve ter descoberto maneiras interessantes de viver no ócio. Quais são as suas maneiras preferidas de passar o tempo?

Estou nesta gaiola 23 horas por dia, mas tiro bom proveito do meu tempo. Em 1980, Robert King [libertado da prisão de Angola em 2001 depois de a sua sentença ter sido considerada improcedente], Albert Woodfox [ainda em Angola apesar de a sua sentença ter sido considerada improcedente em Setembro de 2008] e eu começámos um programa de exercícios físicos que nos fazia levantar às 3h30 e exercitar-nos durante duas horas, seis dias por semana. Mesmo quando fomos separados mantivemos o programa. Ainda hoje faço exercício durante uma hora e meia, seis dias por semana. Depois disso oiço as notícias do World News na NPR [National Public Radio] ou medito até à hora do pequeno--almoço, que costuma chegar entre as 6h30 e as 7h30. A seguir posso, por exemplo, ver o noticiário local na TV Bâton Rouge. Por volta das 8h00 ou um pouco depois, monto a minha secretária vertical na cela: o cacifo em cima da mesa. Escrevo ou leio até às 16h00. Se estiver a responder aos meus numerosos apoiantes, posso ficar a escrever até às 19h00. O trabalho jurídico também me faz passar o tempo. Faço curtos intervalos ao longo do dia. Leio muito, quando tenho tempo. O meu livro preferido de sempre é "Native Son", de Richard Wright. Agora estou a ler "Silent Gesture", de Tommie Smith. Ele e o John Carlos foram dois dos ?irmãos? mais corajosos dos EUA a fazerem a saudação do poder negro na arena mundial, nos Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México. Tenho direito a uma hora no pátio três vezes por semana. Lá, eu e outros tipos corremos atrás de uma bola durante essa hora. Em prisão solitária é preciso encontrar alguma coisa para manter a cabeça activa, senão corre-se o risco de enlouquecer, como já vi mais vezes do que gostaria. No meu caso, tudo o que faço tem a ver com autodisciplina e continuar a instruir-me.

Passou recentemente mais de um ano nas masmorras da Unidade Disciplinar do Campo J. Que comparação há entre isso e viver em CCR [Closed Cell Restriction - restrição de cela fechada, ou prisão solitária]?

Bem, o Campo J é a pior unidade disciplinar do sistema aqui no Luisiana. Enquanto lá estive inalei regularmente gás, Freeze Plus P (aerossol de pimenta) e gás lacrimogéneo, como se fosse ambientador do ar. Cedo, de manhãzinha, os guardas gaseavam alguém, discricionariamente. Se alguém desmaiasse por causa do calor, era gaseado. Se a senhora que trazia os medicamentos dissesse que a gente lhe tinha feito ou dito alguma coisa, gaseavam-nos como a baratas e espancavam-nos. É preciso andar de fato-macaco cor-de--laranja e sempre que alguém do sexo feminino estiver na mesma zona (nível) é preciso tê-lo abotoado até ao pescoço, seja Verão, seja Inverno. A comida é uma tal porcaria que nem a um cão se devia dar. É muito mal confeccionada e as doses são minúsculas. Perdi 14 quilos enquanto lá estive.

A unidade disciplinar tem uma cantina?

Tem. Uma vez por semana pode comprar-se atum, pão, batatas fritas, bolachas, etc. Mas não podemos ter uma colher de plástico nem um copo de papel na cela sem sermos acusados de estar a contrabandear, por isso não há nada que permita misturar maionese ou mostarda na comida. Podemos comprar a bebida Kool Aid, mas se formos apanhados com uma colher, com açúcar ou com um copo, somos mandados para o nível 1 para recomeçar o percurso (a unidade disciplinar tem diferentes níveis e os detidos vão passando lentamente de um para o imediatamente superior).

Havia chamada no pátio?

Sim, três vezes por semana. Só é permitido usar uma T-shirt e calções por baixo do fato-macaco. Estamos completamente acorrentados: cadeia na cintura e nas pernas. Só a cadeia das pernas é retirada às vezes. Durante os meses de Inverno dão-nos um casaco. Um casaco que alguém acabou de usar para correr no pátio, por isso nunca usei nenhum.

E quanto à saúde mental das pessoas?

A unidade disciplinar do Campo J tem um grande número de tipos mentalmente doentes. No meu nível estava a uma célula de distância de um tipo que gritava e berrava e falava alto sem parar. Os guardas costumavam gaseá-lo, o que punha todo o nível a espirrar e a tossir e com os olhos a arder. Era uma situação de loucos.

A unidade disciplinar autoriza as visitas?

Sim, mas muito poucos deixam que a família e os amigos lá vão porque o cubículo para visitas tem três metros por 1,20 m, com uma divisória. E não há água nem casa de banho. É um sítio onde se assa no Verão e se gela no Inverno. Embora haja um aparelho de ar condicionado na parede, quase nunca funciona; aliás, como o aquecimento.

Como está a CCR (solitária), onde está agora. Diferente?

Aqui na CCR há mais presos políticos, neste edifício, que tem 111 tipos. A CCR é para penas de longo prazo. Herman Wallace e Albert Woodfox, de Angola 3, ficaram aqui entre Abril de 1972 e Março de 2008. O Robert King esteve preso 29 anos. Eu estou detido aqui em CCR desde 1978, salvo por um período de 14 meses na "população geral". Depois tomei a minha liberdade física [evasão] em 1986. Estive livre durante 24 horas. Acho que é mais do que muitos poderiam esperar. Na CCR há direito a três dias de pátio, num fato-macaco. Todas as cadeias são retiradas. Podemos ter roupa própria: três pares de jeans, três camisas azuis, três pares de meias, três fatos de treino, dois bonés de Inverno e sapatos de ténis. Podemos ter duas visitas de contacto por mês. Podem vir cinco visitantes de cada vez. Não temos um programa de GED [General Educational Development - desenvolvimento educativo geral] em CCR, nem isso existe em qualquer dos blocos de celas. A comida é mais bem confeccionada, mas, como em qualquer lugar da plantação, não comemos legumes frescos suficientes. Dão-nos batatas em pó, milho velho e uma salada crua duas vezes por ano, no dia de Acção de Graças e no de Natal, e fruta fresca no dia de Natal. No dormitório onde os meus irmãos da A3, Herman e Albert, estão detidos, há um clube de prisioneiros com uma charcutaria que vende saladas cruas, peixe e outras coisas. É assim que consigo legumes frescos. Mas, como em qualquer lugar de Angola, está-se numa prisão.

Quais são as suas principais sugestões para desmontar o sistema?

Vai ser preciso um esforço colectivo de todos vós, eleitores. É preciso enviar petições aos legisladores e aos políticos e exigir mudanças. Têm mais poder do que imaginamos. Podem demolir o sistema dizendo "não" a mais prisões e "sim" a mais escolas. Aqui nos EUA há mais de 2 milhões de pessoas na prisão. O departamento prisional do estado do Luisiana tem um orçamento de quase 700 milhões de dólares para armazenar pessoas durante 40 a 50 anos, sem que haja sinal algum de programas de reabilitação. Os contribuintes dos EUA estão a pagar aos membros das comissões de perdão e de avaliação até 80 mil dólares por ano para que eles neguem tanto o perdão como a liberdade condicional. Os eleitores precisam que o perdão e a liberdade condicional sejam aplicados. Vocês pagam aos políticos; são vocês os empregadores e eles os empregados.

Como continua a lutar contra o sistema a partir de uma cela?

Uso a minha caneta. Fiz amigos em todo o mundo: instrução, instrução e instrução.

Que mudanças acredita que vai haver no sistema, agora que Barack Obama, um negro, está na Casa Branca?

O facto de os eleitores dos EUA terem elegido pela primeira vez um afro-americano para ser comandante-chefe permite esperar que isso signifique que o país está finalmente pronto a sair do limbo espácio-temporal do racismo em que se viu preso durante demasiados séculos e que nós, enquanto nação, podemos seguir em frente. Quanto ao sistema jurídico-criminal, acho que é irrealista pensar que Obama, depois do seu primeiro dia no cargo em 20 de Janeiro, entraria na sala oval, pegaria na caneta e mudaria um sistema que está instalado há 100 anos. Isso não vai acontecer. Obama tem as mãos cheias com a crise financeira, uma crise que foi criada por entidades multimilionárias - bancos, empresas de investimento e as maiores empresas comerciais do mundo: Bear Stearns, Merrill Lynch, Lehman Brothers, AIG. A crise das hipotecas subprime significou que milhares de pessoas perderam as suas casas. Os afro-americanos foram duramente atingidos por esta crise especulativa e essas pessoas sem abrigo viram--se com uma factura de 700 mil milhões de dólares nas mãos para pagarem aos grandessíssimos filhos da *11. LA State Prison, Angola

LA 70712 Estados Unidos da América do Norte

www.freezulu.co.uk

Exclusivo "the Idler"/i


Esta não sabia, nem dos Angola3 (http://www.defenestrator.org/angola_3), mas estou a par do caso do "Mumia Abu Jamal".




 


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